Artemus de Almeida fecha 82º Aniversário do Clube Hipico de Santo Amaro com vitória nos 2 GPs

Após cinco dias de competição chegou ao final na tarde desse domingo, 10/9, o Concurso de Salto Internacional e Nacional do 82º Aniversário do Clube Hípico de Santo Amaro (SP), tradicionalmente o maior evento do ano no hipismo brasileiro com mais de 1600 participações entre 6 e 10/9. Nesse domingo, no GP Internacional, a 1.50/1.55 metro, válido pela 5ª Etapa do Ranking Brasileiro e etapa qualificativa para a Copa do Mundo 2018, sagrou-se campeão o cavaleiro pan-americano top Artemus de Almeida apresentando Cassilano JMen, conjunto vice-campeão brasileiro senior top 2017 e confirmando mais uma vez sua liderança no ranking brasileiro Senior Top. Artemus venceu as duas principais disputas da competição, uma vez que também foi campeão do GP Clássico, a 1.45 metro, na noite do sábado, 9/9, montando M.E.C.G Cassilero.

Artemus e Cassilero JMen deram show em pista

Dos 30 conjuntos na 1ª volta idealizado pelo course-designer internacional brasileiro Anderson Lima, especialmente vindo do México, os melhores oito habilitaram-se para o 2º e decisivo percurso: cinco sem faltas e os três conjuntos com uma falta. Em 2º lugar chegou Felipe Amaral com Premiere Carthoes BZ, dupla campeã brasileira Senior Top 2017 e reserva no Time Brasil na Rio 2016, com duplo zero, em 40s07.

Felipe e Premiere Carthoes BZ

Já o 3º posto ficou com José Luiz Guimarães de Carvalho montando Deauville, conjunto em franca ascensão, também com percursos sem faltas, em 43s29. A disputa distribuiu R$ 80 mil em premiação.

José Luiz e Carthoes BZ

Para Artemus e Cassilano JMen, o resultado foi especial. “A gente vem se classificando sempre nas principais competições desde o ano passado, mas esse é o primeiro GP que ganhamos”, conta Artemus, que monta Cassilano JMen, um Brasileiro de Hipismo de 10 anos, criação e propriedade do Haras Agromen, principal criatório no país, há cinco anos.

Artemus foi o principal destaque nos 82 anos do CHSA

A consistência e potencial do conjunto dá mostras de poder brigar por uma vaga na equipe do Brasil nas principais competições internacionais como os Jogos Equestres Mundiais 2018 e Pan-americano 2019. “Sem dúvida, onde o Cassiliano estiver vai ser muito importante, pois é muito potente e não gosta de fazer faltas”, destaca o campeão que deixou uma mensagem para seus fãs. “Cada dia mais, não só eu, mas os meus dois principais cavalos – o Cassiliano e Cassilero – têm torcida especial. Então eu fico muito agradecido porque são cavalos muito queridos e que tenha essa torcida pela gente!”

Para Ronaldo Bittencourt Filho, presidente da Confederação Brasileira de Hipismo no ciclo 2017 e 2020, falou sobre o objetivo do ranking brasileiro Senior Top. “O ranking é importante para que nossos cavaleiros em atividade no país possam se manter no mais alto rendimento. Dessa forma, conseguimos ampliar cada vez mais o grupo para formação das nossas equipes para as principais competições internacionais”, destaca Ronaldo Bittencourt Filho, que partiu em viagem para reunião do grupo VI da Federação Equestre Internacional em Lima no Peru, em 11 e 12/9. “Após essa reunião teremos maior definição para planejar os próximos passos da nossa participação nas principais competições internacionais.”

O próximo compromisso da elite do hipismo brasileiro é o Internacional Indoor 2017, na Sociedade Hípica Paulista, entre 20 e 24/9, válido pela 6ª de 9 etapas do ranking Senior Top 2017.

GP Internacional 82º Aniversário do Clube Hípico de Santo Amaro

Campeão Artemus de Almeida /Cassilano JMen – BRA – 0/0/39s75
Vice Felipe Amaral / Premiere Carthoes BZ – BRA – 0/0/40s07
3º José Luiz Guimarães de Carvalho / Deauville – BRA – 0/0/43s29
4º Thiago Mattos / Hermès do Santo Antonio – 0/0/49s27
5º Tiago Mesquita / Baptista – BRA – 4/0/39s51
6º Marcio Francisco Cia Junior / Willen – 4/0/42s74

Ranking Brasileiro Senior Top após 5 de 9 Etapas

1º Artemus de Almeida – 217,5 pontos
2º Felipe Amaral – 182,5 pontos
3º José Roberto Reynoso Fernandez Filho – 142,0 pontos

Contagem completa

Próximas Etapas Ranking Senior Top

CSI-W** e CSN Indoor – SHP – 20 a 24 de setembro
CSN Agromen – Orlanddia 11 a 15 de outubro
CSN – GP Cidade do Rio Janeiro – 23 a 26 de novembro
CSN Top Rider – 7 a 10 de dezembro (local a confirmar)

Resultado completo.

Fonte: Imprensa CBH ; fotos: Luis Ruas

“Cavalo não é máquina, mas parceiro e o trabalho adequado faz a diferença” , Sebastian Rohde

A importância da formação de um cavalo novo se reflete no futuro do esporte. Levar um cavalo ao mais alto nível de competição não é tarefa fácil: requer conhecimento técnico, paciência e horsemanship no sentido mais amplo da palavra: começando pelo respeito ao animal, treinamento adequado com planejamento para não atropelar nenhuma fase, chegar à altura de 1.40 metro por volta dos 7/8 anos e seguir carreira a 1.50 / 1.60 metro até depois dos 15 anos.

Hoje a criação do Cavalo Brasileiro de Hipismo (BH) está a altura dos melhores linhagens mundiais. “Fato é que no Brasil são criados cavalos extraordinariamente bons e na
realidade esse mesmo cavalo é igual às melhores linhagens europeias A única questão é formação e essa é a diferença”, discorre o alemão Sebastian Rohde, treinador especializado em cavalos novos, que tem vindo com regularidade ao Brasil desde 2009.

Flash durante a clínica do treinador Sebastian Rohde (terceiro da direita para esquerda) com Tony Fortino e Carolina Mendonça, à sua direito, Beate Susemihl,que atuou na tradução, Geraldo Lamounier e Antonio Celso Fortino, conselheiro da Associação Brasileira dos Criadores do Cavalo de Hipismo, um dos idealizadores da Clínica

Rohde, que trabalhou por muitos anos na Associação do Holsteiner, depois com o
criador Wolfgang Brinckmann, proprietário da Pikeur / Eskadron, atualmente está à frente Associação Internacional do Cavalo Oldenburger para os mercados dos EUA e América
do Sul. O conceito liberal da Associação Oldenburger de Esporte Internacional também vai de encontro à criação do cavalo Brasileiro de Hipismo, sem “bairrismo” para efetuar os registros das mais diversas e melhores linhagens warmblood a nível mundial.

O Brasil Hipismo conversou com Rohde, após mais uma bem sucedida clínica no início de fevereiro no Clube Hípico de Santo Amaro. Confira!

O alemão Sebastian Rohde à direita ao final da Clinica em Santo Amaro com Antonio Fortino e Rafael Christianini

BH. Quantas vezes você já veio para o Brasil e quais suas principais atividades?

Sebastian Rohde. Estive pela primeira vez no Brasil em 2009. Depois passamos a organizar clínicas com o Antonio Fortino e Paulo Foroni, primeiramente, duas a três
vezes por ano, depois quase cinco vezes por ano, acho que já sou meio brasileiro.

Depois que deixei a Associação do Holsteiner, após um pequeno hiato, voltei a montar mais e mediante a agenda não vinha tanto ao Brasil. Durante dois anos trabalhei os
cavalos novos para Wolfgang Brinckmann, proprietário da Pikeur /Eskadron. Agora estou trabalhando na Associação do Oldenburger e sou e sou responsável pelo mercado nos
EUA e América do Sul. O motivo é que a Associação Internacional do Oldenburgo tem 700 membros nos EUA e lá a cada ano nascem 300 potros registrados por nós. Então como já tenho contato na América do Sul com o Brasil, também voltei a vir pra cá.

BH. Mediante a globalização da inseminação artificial, a diferença entre os cavalos de linhagens warmblood está cada vez mais tênue. Pode apontar algum diferencial do Oldenburgo? 

Rohde. Cada vez as linhagens estão mais misturadas e há menos diferenças. A principal diferença é que o cavalo oldenburgo em sua origem – que existe até hoje – é um
warmblood de estatura bastante pesada e não é adequada ao esporte. Era usado na agricultura e é criado até hoje. Mas não tem mais nada com a atual Associação do
Oldenburger de Cavalos de Salto Internacional, fundada em 2001.

Oldenburger do jeito que está hoje é uma associação relativamente jovem e sempre esteve aberta a outras linhas com hannoveranos e holsteiners entre outras. A ideia é
criar um cavalo de esporte , o que basicamente é a diferença. Por exemplo a Associação do Holsteiner é bastante restritiva, por isso, muitos cavalos bons embora tenham
linhagem Holsteiner estão registrados no Oldenburgo, que é uma mistura.

Uma coisa interessante é que dos 21 mil potros warmblood que nasceram na Alemanha em 2016, o mesmo número que há 40 anos, o percentual do Oldenburger quadruplicou, enquanto outros studbooks diminuíram os registros ou desapareceram. Somos uma Associação flexível, demos chances a muitos garanhões. O presidente da Associação do Oldenburger nos EUA é Paul Schockemöhle, cavaleiro alemão e maior criador do mundo, que produz mais de 1000 potros ao ano em seu Haras Lewitz.

BH. Quais os principais destaques da raça Oldenburg no cenário internacional?

Rohde. Weihegold (Don Schufro em Sandro Hit), campeão olímpico por equipes e prata individual de Adestramento com Isabell Werth na Rio 2016, e que recentemente estabeleceu dois recordes em GPs World Cup com aproveitamento acima de 90%. Na modalidade salto são muitos os expoentes como Toulago, montaria do suíço Pius Schwizer, Couleur Rubin, na sela de Ludger Beerbaum, Sandro Boy, vencedor da Copa do Mundo com Marcus Ehning, entre outros.

/ Isabell Werth com Weissgold, um oldenburger top mundial , em ação na Rio 2016 ; img: FEI

BH. Como você avaliou o curso agora em fevereiro no Clube Hípico de Santo Amaro? Em linhas gerais no que se base o treinamento de um cavalo novo para a modalidade salto?

Rohde. Acho que a técnica de montaria está indo pro caminho certo, mesmo que aos poucos. Já verificamos uma outra ideia no que se refere montaria e formação de cavalos
novos. O negócio não é somente saltar alto e largo, mas ter controle sobre o cavalo e a partir daí estar melhor preparado para competir em nível mais alto . A ideia do
programa é que os cavaleiros tenham uma formação para trabalhar os cavalos novos de modo correto e melhor para que com isso o Cavalo Brasileiro de Hipismo também possa
ser melhor vendido.

O cavaleiro Tony Fortino participante regular das clínicas com Sebastian Rohde, em salto perfeito com Daquiri For, de 7 anos

Acho que esse também é um diferencial na Alemanha, onde tem muita criação, mas também se investe na formação dos cavalos. O comércio prospera porque os cavalos são bem trabalhados e podem ser montados por pessoas diferentes. Não basta criar bem é preciso formar os cavalos.

Tivemos vários tipos de cavaleiros na clínica, o que a torna bastante interessante, porque nenhum grupo é igual ao outro. Eu realmente gosto do que faço. Não olho  relógio. É preciso de alguma forma oferecer uma solução aos cavaleiros.

BH. Os mesmos exercícios básicos se aplicam a todos os níveis?

Rohde. Sempre há vários aspectos. A quem quero treinar, o cavaleiro ou cavalo, ou mesmo ambos? Um percurso é feito de diferentes distâncias, mais largas , mais
curtas, e mesmo quando o salto é isolado, nem sempre se acerta a distância ideal e preciso se preparar para o próximo obstáculo..

Não é adequado para o cavalo fazer um percurso todos os dias. Por isso, os exercícios com varas no chão e saltos baixinhos eu preservo o cavalo e assim treinamos a comunicação e a sintonia do olho do cavaleiro em parceria com o cavalo. Há muita coisa a se aprender e não é possível fazê-lo saltando somente percursos. Também não posso, por exemplo, enviar um cavalo novo para escola e dizer agora vamos escrever um ditado ! É preciso fazer uma coisa após a outra, passo a passo. Quando então um cavalo, aos
8 anos, está pronto para saltar a 1.50 metro em algum momento ele também tinha quatro anos e precisou ser formado. E, dessa forma, passo a passo, simplesmente
preparando o cavalo gradativamente para tarefas mais difíceis.

Claro que só se aprende a saltar saltando. Mas antes disso é preciso ter o cavalo sob controle, senão o resto não faz sentido. Eu posso fazer adestramento sem saltar,
mas não posso saltar sem fazer adestramento.

De modo geral quando vejo o hipismo no Brasil, noto que as pessoas gostam mesmo de saltar e não trabalhar. Então  muitos cavalos não vão ultrapassar a barreira da altura de 1.40 metro, sempre pode ter cavalo com mais potencial, isso é algo que a gente vem conversando há muito tempo.

Temos falado sobre cavalos de 5 anos realizarem disputas ao cronômetro no Campeonato Brasileiro. Isso é algo que a gente não conhece e realmente considero besteira. Em geral na Europa, cavalos de 6 anos já fazem disputa ao cronometro. Mas na Alemanha – o cavalo para disputar o Campeonato Alemão precisa vencer somente uma
qualificativa durante o ano. A gente preserva nossos cavalos muito mais, prova para cavalos novos 5 anos só tem uma por final de semana e já na altura de 1.20 / 130
metro não mais que isso. Eles podem concorrer em duas provas, mas em um único dia..

BH. Em linhas gerais, quais as dicas que você pode dar aos cavaleiros e criadores no Brasil?

Rohde. São muitos aspectos diferentes que tornam o Brasil extraordinariamente interessante. Fato é que aqui são criados cavalos muito bons e na realidade esse mesmo
cavalo é igual a linhagens europeias. A única questão é formação e essa é diferença. Na Alemanha, como falei, nosso maior negócio é formar cavalos novos. E quando a
gente fala em esporte ele começa a 1.40 metro, o que vem antes é somente formação.

Por isso, temos centenas de cavalos saltando 1.40 metro e não é nada demais.
Para esporte top é preciso cavalos que saltem 1.50 e 1.60 metro. E o cavaleiro brasileiro em si é extremamente veloz, mas às vezes é necessário não colocar o cavalo
novo na correria para depois aos 8 / 9 anos, ter um cavalo bom na cocheira.

Acho que um profissional também necessita de treinador. Em todos os concursos internacionais, a maioria dos cavaleiros têm seu treinador e trabalham em conjunto. Não é
possível ser diferente.

Na Alemanha muitos profissionais se especializaram em adestramento para cavalos de salto. Talvez eles mesmo não tenham condições de saltar um GP, mas sabem
trabalhar a base do cavalo de adestramento do cavalo para tanto. Um cavalo de GP necessita de movimento, sair da cocheira até 3 vezes por dia. Montar só uma vez por
dia não dá certo, o cavalo pode também ir ao padoque, piquete, andador. Cavalo não é máquina, mas parceiro e o trabalho adequado e detalhes fazem a diferença.

Tony Fortino, cavaleiro que também está investindo na formação de cavalos novos, com Zirocco de 7 anos

Interessante é que não há um caminho que esteja sempre certo. Acho que um problema na Alemanha é que formamos bem nossos cavalos, mas quando eles têm 7/8 anos, também precisam de mais tempo para ficarem mais rápidos e competitivos e isso também requer formação.

Não há um só caminho certo, mas é preciso seguir uma ideia que funciona. Respeito é fundamental. De uma forma ou de outro, o cavalo é um investimento: em algum momento
será vendido ou precisa ser vendido. Nesse sentido a gente corta a própria carne quando não cuidamos adequadamente da formação do nosso cavalo. Ele é o atleta, e se
não for cuidado será perdido e com prejuízo financeiro.

Amadores e profissionais precisam investir nesse parceiro. Se quero mudar alguma coisa aqui no Brasil, não basta conversar com o cavaleiro, mas também com os proprietários, criadores, treinadores e dirigentes que fazem as regras. Todos precisam conversar, entender as necessidades e compromissos de mudanças.

 

Fonte: Brasil Hipismo ; fotos: João Markun, FEI e arquivo pessoal